Como Escrever um Obituário: Estrutura, Exemplos e Onde Publicar
A informação prática que ninguém pode faltar, o tom que se acerta à terceira tentativa — e três modelos prontos a adaptar.
A informação prática que não pode faltar num obituário — velório, funeral, morada, hora — e três modelos prontos a adaptar, do mais factual ao funeral civil. Onde publicar, quanto custa no jornal, e o teste da frase que só se aplica àquela pessoa.
Escrever o obituário de alguém que se ama é uma das tarefas mais estranhas do luto: pedem-nos que resumamos uma vida inteira em duzentas palavras, num momento em que mal conseguimos formar uma frase.
Não tem de ser bonito. Tem de estar certo. A informação prática — quando, onde, a que horas — é o que as pessoas vão ler duas vezes. O resto é o que fica.
O que não pode faltar
1. Nome completo (e como era conhecida)
2. Datas de nascimento e falecimento, ou idade
3. Naturalidade e residência
4. Quando e onde é o velório e o funeral — dia, hora, morada
5. Quem fica: família próxima
Se só tiver energia para isto, chega. Ninguém vai reparar que faltou a prosa.
Estrutura de um obituário
| Secção | O que inclui | Obrigatório? |
|---|---|---|
| Anúncio | Nome, idade, data do falecimento | Sim |
| Cerimónias | Velório e funeral: dia, hora, local, morada | Sim |
| Vida | Naturalidade, profissão, percurso, o que a definia | Não |
| Família | Cônjuge, filhos, netos, irmãos | Recomendado |
| Pedidos especiais | Flores, donativos, código de vestuário | Se aplicável |
| Agradecimentos | Cuidadores, equipa médica, quem esteve | Não |
Três modelos
1. Curto e factual
[Nome completo], de [idade] anos, natural de [freguesia, concelho], faleceu no dia [data], em [local].
O velório realiza-se na [local], a partir das [hora] do dia [data]. O funeral parte às [hora] do dia [data], com destino ao [cemitério].
Deixa [cônjuge], [filhos] e [netos].
É suficiente. É o que a maioria dos jornais publica. Não tem de fazer mais do que isto.
2. Com uma vida lá dentro
[Nome completo], carinhosamente conhecida por [alcunha], faleceu no dia [data], aos [idade] anos, em [local], rodeada da família.
Natural de [freguesia], viveu grande parte da vida em [local], onde trabalhou como [profissão] durante [n] anos. [Uma frase concreta: o que fazia aos domingos, o que ninguém lhe conseguia recusar, o que dizia sempre.]
Deixa [família].
O velório realiza-se em [local], a partir das [hora] de [data]. O funeral parte às [hora] de [data], para o [cemitério].
A família agradece [às equipas / a quem cuidou / a quem esteve presente].
3. Para um funeral civil ou não convencional
[Nome completo] partiu no dia [data], aos [idade] anos.
[Uma frase que a resuma como era, não como se espera que fosse.]
A cerimónia de despedida realiza-se em [local], no dia [data], às [hora]. Não é um funeral religioso. A família pede que não se vista de preto — [ele/ela] detestava.
Em vez de flores, [a família sugere um donativo a [instituição]].
Se a cerimónia for sem cariz religioso, veja também como conduzir um funeral civil.
Onde publicar
| Onde | Alcance | Custo |
|---|---|---|
| Jornal local / regional | Comunidade, geração mais velha | Pago, por linha ou módulo |
| Jornal nacional | Amplo, mas disperso | Mais caro |
| Site da agência funerária | Quem procura por nome | Normalmente incluído |
| Memorial online | Família dispersa, diáspora, partilha por WhatsApp | Varia |
| Redes sociais | Rápido, informal | Gratuito |
| Placar da igreja ou junta | Comunidade local | Gratuito |
O jornal cobra por linha
É a razão prática pela qual os obituários de jornal são curtos. Se quiser escrever mais, o custo sobe depressa. Escreva o essencial para o jornal, e o resto noutro sítio.
Sobre a versão online
Um memorial online resolve dois problemas que o jornal não resolve: não tem limite de espaço, e partilha-se por link — o que importa quando metade da família está em França, na Suíça ou no Canadá e não vai ler o Diário de Notícias.
Além disso, permite que quem não pode estar presente deixe uma mensagem, uma fotografia, ou acenda uma vela. Para a diáspora, é frequentemente a única forma de participar. É o que fazemos aqui, no Despedida.pt — mas o princípio vale seja onde for que o faça.
Como acertar o tom
Não vai acertar à primeira. Ninguém acerta.
- Escreva à mão, primeiro. Sem estrutura, sem editar. O que sair, sai.
- Depois corte. Fique com as frases que só se podiam aplicar àquela pessoa.
- Leia em voz alta. Se soar a comunicado, reescreva.
- Peça a alguém que leia. Alguém que a conhecia, de preferência.
Uma frase que se podia aplicar a qualquer pessoa não diz nada. "Foi uma pessoa dedicada à família" — toda a gente foi.
Uma frase que só se aplica àquela pessoa diz tudo. "Fazia sopa aos domingos para quem aparecesse, e aparecia sempre gente."
Se conseguir uma frase assim, o obituário está feito.
Flores ou donativos
Se a família prefere donativos a coroas, diga-o explicitamente. As pessoas não adivinham, e a fórmula é simples:
Em vez de flores, a família agradece donativos a [instituição].
Se prefere flores, também vale a pena dizer onde encomendar — há floristas que entregam diretamente no local do velório, e isso poupa deslocações a quem vem de longe.
Erros comuns
- Esquecer a morada exata do velório ou do cemitério. Toda a gente sabe onde é — até chegar alguém de fora.
- Não indicar a hora de saída do funeral. É a informação mais consultada, e a mais vezes omitida.
- Publicar tarde demais. Os jornais têm horas de fecho. Confirme com a agência.
- Errar um nome de família. É uma ferida que fica.
- Escrever sozinho, à uma da manhã. Peça ajuda. É a altura errada para estar só.
Deixe a agência ajudar
A maioria das agências funerárias trata da publicação — sabe as horas de fecho dos jornais, os formatos, os custos. Algumas escrevem o texto, se lhes derem os elementos.
Não é sinal de desleixo aceitar essa ajuda. É sinal de que sabe onde gastar a energia que lhe resta.
Depois
O obituário anuncia. O que se segue é diferente — o livro de condolências, o que dizer a quem chega, e mais tarde o elogio fúnebre, se houver.
E se for a primeira vez que faz isto, o guia o que fazer quando alguém morre em Portugal reúne a sequência inteira, para não ter de a manter na cabeça.