Terça-feira, 15 de setembro de 2026
Jurídico 7 min de leitura

Testamenteiro: O Que É, Que Poderes Tem e Como Escolher

A pessoa que o testador nomeia para garantir que a sua vontade é cumprida. Não é obrigatório ter um — mas quando há testamento, muda a forma como tudo se resolve depois.

Foto: Pavel Danilyuk / Pexels

O testamenteiro é a pessoa nomeada no testamento para garantir o cumprimento da vontade do testador — figura distinta do cabeça de casal, que a lei designa por ordem. Que poderes tem, quem pode ser nomeado, se é remunerado, e o que considerar antes de aceitar ou de nomear alguém para esta função.

Antes de continuar

Este guia reflete o Código Civil português (Livro V, Título IV, Capítulo VIII — Testamentaria), na redação em vigor à data de publicação. Alguns aspetos, sobretudo a remuneração, dependem do que ficar definido no testamento e podem exigir interpretação caso a caso — consulte um advogado ou notário antes de tomar decisões concretas.

Quando se fala em herança, a maioria das pessoas conhece o cabeça de casal. O testamenteiro é menos falado, e é frequentemente confundido com ele — mas são figuras diferentes, com papéis diferentes.

O que é um testamenteiro

É a pessoa que o autor de um testamento nomeia, no próprio testamento, para zelar pelo cumprimento das suas disposições. Segundo o Código Civil, o testamenteiro tem as atribuições que o testador lhe conferir, dentro dos limites da lei — ou seja, os poderes concretos dependem do que ficou escrito no testamento, e não são sempre os mesmos de caso para caso.

Na prática, o testamenteiro é quem garante que a última vontade não fica só no papel.

Testamenteiro não é o mesmo que cabeça de casal

TestamenteiroCabeça de casal
Existe sempre?Só se o testador o nomearSempre que há herança a partilhar
Quem nomeiaO testador, no testamentoA lei, por ordem — cônjuge, depois testamenteiro, depois herdeiro mais velho
Função principalZelar pelo cumprimento das disposições testamentáriasAdministrar a herança até à partilha
Pode acumular as duas funções?Sim — mas só pode ser cabeça de casal se não houver cônjuge sobrevivo
São figuras distintas, ainda que possam recair na mesma pessoa.

Se quer perceber melhor a função do cabeça de casal em concreto, veja herança em Portugal — o que fazer.

Que poderes tem

Não há uma lista fixa e igual para todos os testamenteiros — depende do que o testador escreveu. Mas, tipicamente, cabe-lhe:

  • Zelar pelo cumprimento das disposições testamentárias, dentro do prazo que o testador tenha marcado.
  • Defender a validade do testamento, se for contestado por algum herdeiro.
  • Prestar contas do que recebeu e do que despendeu, enquanto durar a execução do testamento.
  • Contratar advogado, se for preciso representar a herança em tribunal — as despesas são suportadas pela herança.

Se o testador não especificar poderes concretos, o testamenteiro tem os que a lei prevê como base. Se quiser um papel mais amplo — ou mais limitado — isso deve ficar escrito no próprio testamento.

Quem pode ser nomeado

Qualquer pessoa com capacidade legal para tal — não precisa de ser advogado, nem profissional de nenhum tipo. Pode ser:

  • Um familiar próximo, mesmo que também seja herdeiro.
  • Um amigo de confiança, sem qualquer parentesco.
  • Um advogado ou solicitador, contratado especificamente para o efeito.

É possível nomear mais do que um testamenteiro, e definir se atuam em conjunto ou separadamente. Também se pode nomear um segundo, para o caso de o primeiro recusar ou não poder exercer a função.

Vale a pena nomear um?

Quando faz mais diferença

Se antevê que algum herdeiro possa contestar o testamento, ou se as disposições são mais complexas do que a simples divisão de bens, um testamenteiro dá uma camada extra de segurança: alguém com o dever legal de defender a vontade do testador, independentemente de interesses próprios na herança.

Se a herança é simples e a família está de acordo, muitas vezes não faz falta — a habilitação de herdeiros e o cabeça de casal resolvem o processo sem necessidade de mais nenhuma figura. Veja habilitação de herdeiros: onde fazer e quanto custa.

O testamenteiro pode recusar

Ninguém é obrigado a aceitar o encargo. A recusa é livre — não exige justificação — e pode acontecer mesmo depois de ter começado a exercer as funções, embora nesse caso deva comunicar formalmente a renúncia.

É por isso que faz sentido falar com a pessoa antes de a nomear no testamento. Uma nomeação sem aviso prévio pode acabar em recusa no momento em que mais falta faz.

É remunerado?

Depende do que ficar definido. O testador pode prever uma remuneração no testamento, ou o testamenteiro pode aceitar exercer o encargo sem qualquer pagamento — a jurisprudência portuguesa reconhece ambas as situações. Não existe um valor ou percentagem fixado por lei, ao contrário do que acontece noutros países.

Se está a redigir um testamento e pretende nomear um testamenteiro, é aqui que um advogado ou notário faz diferença — ajuda a definir claramente o que se espera do testamenteiro e se há ou não lugar a remuneração, evitando ambiguidade que gere conflito mais tarde.

Quando é que a função termina

  • Quando as disposições testamentárias estiverem integralmente cumpridas.
  • Por renúncia do próprio testamenteiro, a qualquer momento.
  • Por destituição judicial — mas os tribunais tratam o afastamento de um testamenteiro nomeado como situação excecional, exigindo motivos concretos e objetivos. Não basta um herdeiro estar descontente.

E se houver conflito entre herdeiros e testamenteiro?

Acontece, sobretudo quando alguém se sente prejudicado pelas disposições do testamento. O testamenteiro tem o dever de defender a validade do documento, o que por vezes o coloca diretamente em confronto com um herdeiro insatisfeito.

Se antecipa esta possibilidade na sua família, vale a pena ler como evitar quezílias e processos em tribunal por heranças — a prevenção, quando é possível, poupa anos de desgaste.

Antes de nomear alguém

  • Fale com a pessoa antes — surpreender alguém com esta responsabilidade no testamento aumenta o risco de recusa.
  • Seja claro sobre os poderes que quer atribuir — quanto mais específico o testamento, menos espaço para disputa depois.
  • Pondere se há remuneração, e diga-o expressamente.
  • Confirme que a pessoa consta do Registo Central de Testamentos — não a nomeação em si, mas o próprio testamento deve estar registado, para que seja encontrado depois.

Sobre os tipos de testamento e o que pode incluir, veja testamento em Portugal — como fazer.

Se está do outro lado: foi nomeado testamenteiro

Pense com calma antes de aceitar. É um compromisso com prazo indefinido — dura enquanto a execução do testamento não estiver concluída — e implica responsabilidade pelos atos praticados. Se aceitar, terá de prestar contas, e pode ter de defender o testamento perante herdeiros descontentes.

Se decidir recusar, não precisa de justificar — mas avise o mais cedo possível, para que a família possa avançar sem ficar bloqueada à espera da sua decisão.

Perguntas frequentes

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